21 de jul de 2007

QUEM AMA, CUIDA


Quem ama, cuida


Saúde física e mental de quem ajuda parentes idosos merece mais atenção. O cuidador requer cuidados, alertam especialistas




A professora aposentada Rosileni Loureiro, de 57 anos, segue, todos os dias, uma rotina rigorosa: dedica suas 24 horas aos cuidados com a mãe, Euniza, que tem 80 anos e há oito sofre de uma doença neurodegenerativa conhecida como mal de Alzheimer.

Como Euniza já não anda nem fala, ela depende da filha para comer, trocar de roupa, ir ao banheiro, tomar banho e remédios, entre outras atividades cotidianas.

 Ninguém duvida de que Euniza requer cuidados especiais. O que muita gente talvez ainda não tenha se dado conta é de que Rosileni, assim como tantos outros cuidadores familiares de idosos, também precisa de ajuda.

A tarefa de cuidar de idosos, em geral, é exercida por esposas e filhas na faixa etária de 50 a 60 anos. "Essas mulheres já não são jovens e, submetidas a uma rotina estressante, ficam com sua saúde física e mental bastante prejudicada", afirma a psicóloga Ana Teresa Cerqueira, do Departamento de Neurologia e Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

"Quando se comparam duas mulheres na mesma faixa etária, uma cuidadora e a outra não, aquela que tem a responsabilidade de zelar por um idoso corre maior risco de sofrer de depressão e de outras manifestações psicossomáticas, além de apresentar mais insônia e dores nas costas", comenta Ana Teresa.

As dores nas costas, há muito tempo, incomodam Rosileni, que, sozinha, várias vezes ao dia, carrega a mãe da cama para cadeira de rodas e vice-versa

 "Além de cuidar da minha mãe, tenho os afazeres domésticos: não sobra tempo para eu ir ao médico", diz.

A fisioterapeuta Luciana Gonçalves, em sua pesquisa de mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), acompanhou durante meses a rotina de cerca de 20 cuidadores de idosos.

A pesquisadora constatou que a principal queixa física dessas pessoas era a dor nas costas.

"Os cuidadores, em sua maioria, reconheciam estar debilitados e precisar de tratamento, mas, dedicando-se em tempo integral ao bem-estar do idoso, acabavam deixando de lado a própria saúde", afirma Luciana, que leciona na Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

Os cuidadores, em geral, não têm com quem dividir seus afazeres.

Além de não poderem pagar por serviços profissionais de enfermagem, não contam com a ajuda de outros membros da família.

Sobrecarregados de trabalho, esses cuidadores se sentem isolados e quase nunca desfrutam de momentos de lazer.

 "Alguns não conseguem aproveitar nem as poucas oportunidades que têm de se divertir, porque não param de se preocupar com os idosos", comenta a psicóloga Ana Teresa, da Unesp.

Cuidar do idoso, em geral, não é uma opção pessoal, mas o resultado das circunstâncias.

"De qualquer forma, o que prevalece entre os cuidadores não é um sentimento de revolta, e sim a aceitação do problema", afirma Ana Teresa. Rosileni exemplifica bem essa situação.

"Depois que me divorciei, voltei a morar com minha mãe e, nessa época, ela ainda era uma mulher ativa e independente", conta.

Quando a mãe ficou doente, Rosileni se sentiu na obrigação de cuidar dela.

"Sei que abri mão da minha vida pessoal, mas preciso retribuir tudo o que minha mãe fez por mim", justifica.

Para orientar pessoas na mesma situação de Rosileni, a psicóloga Ana Teresa ajudou a criar na Unesp um curso para cuidadores de idosos.

"Os cursos que já existiam focavam, sobretudo, a atenção aos idosos. Já o nosso dava ênfase ao cuidador, à sua saúde, sentimentos e necessidades", afirma Ana Teresa.
 
A iniciativa foi um sucesso: os alunos da segunda turma do curso se organizaram e, hoje, com o apoio da prefeitura de Botucatu e da Unesp, mantêm um centro-dia de assistência a idosos e suas famílias.

 "Lá, cerca de 30 idosos, a maioria com algum tipo de demência, passam o dia e recebem cuidados de terapia ocupacional, psicologia e fisioterapia, entre outros", diz Ana Teresa.

O centro-dia permite aliviar a sobrecarga de trabalho dos cuidadores. "Mas eles também podem se beneficiar diretamente dos serviços, participando, por exemplo, de grupos de auto-ajuda", ressalta.
 
A fisioterapeuta Luciana considera que programas de apoio aos cuidadores são uma necessidade urgente.

 "A população idosa está crescendo no Brasil e, como a qualidade de vida no país continua baixa, já são comuns os casos em que uma pessoa idosa precisa cuidar de outra", afirma.

"É preciso, portanto, capacitar o cuidador familiar, para que ele preste assistência adequada e preserve a própria saúde", lembra Luciana.

2 comentários:

  1. LECIR MARQUES,

    muitas coisas compõem o nosso entorno, inúmeras vertentes da vida exigem olhemos para os lados, para trás, à frente... o que quase nunca acontece, a não ser quando o fogo queima as próprias mãos das pessoas.

    Conheço, por exemplo (cito apenas um caso que conheço), um caso na grande Curitiba, no qual duas moças, jovens mesmo, cuidam de uma senhora, já num grau avançado, semelhante ao que está descrito nesta tua bela, lúcida postagem.

    Um abraço. Gostei do teu sítio bem cuidado.
    D

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